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Artigo: Dinheiro e magia: quem riu por último?
Incluido por: web
Data: 18/04/2012


O dinheiro é invenção do demônio? Na visão de Hans Christoph Binswanger, e segundo Goethe, o papel moeda é fruto da parceria de Fausto e Mefistófeles. O Fausto original praticava a alquimia, ciência que, na visão popular, busca a transformação de chumbo em ouro. Felizmente tal artifício nunca foi concretizado, imaginemos o brutal caos das economias da época se o seu principal meio de pagamento pudesse ser multiplicado, sem limite e sem o correspondente aumento de produção de riquezas.

A edição brasileira do livro “Dinheiro e Magia” de Binswanger é introduzida por Gustavo Franco. No prefácio, Franco nos apresenta “Fausto” de Goethe, obra mais conhecida de modo transversal por citações e filmes do que propriamente lida. A peça foi escrita em duas partes: a primeira, a mais comum e representada, apresenta Fausto como intelectual frustrado em sua ambição e que, manipulado por Mefistófeles, assina com ele um pacto pelo qual receberia conhecimento, glória e o que mais quisesse durante um determinado período de tempo, ao fim do qual entregaria sua alma em troca dos favores. A segunda parte, publicada apenas após a morte do autor, expande o tema e trata inclusive das relações econômicas e da nascente sociedade industrial. Nela, Fausto e Mefistófeles são caracterizados mais como sócios envolvidos numa aposta do que pactários.

Hans Binswanger considera a alquimia tema central em “Fausto” e fundamental para compreendê-lo, define-a como “uma tentativa do homem para escapar do tempo enquanto ainda está nele – seu esforço para se libertar da transitoriedade enquanto está nesta vida”. A ideia da transmutação é muito mais profunda do que a mera procura por riqueza fácil, seria baseada no conceito de que o ouro já está em todos os metais, pois todos os metais são um só. O mister do alquimista consistiria em fazer o ouro contido no chumbo aflorar, através de um processo contínuo de trabalho sobre a matéria, até chegar ao ponto em que esta esteja pronta para a transformação, o momento primordial da criação. O tempo, então, teria sido derrotado.

O autor estabelece um paralelo entre alquimia e economia, destacando a introdução do papel moeda, obra de Fausto por inspiração de Mefistófeles, como instrumento de “transmutação” e multiplicação de riqueza. Diferente das moedas com valor intrínseco, como as de ouro e prata com quantidade em circulação dependente diretamente da disponibilidade destes metais, o papel moeda é emitido com apenas a chancela do governante e sua garantia. Inicialmente, o emissor se comprometia a trocar as notas por seu valor de face em metal precioso quando o portador o desejasse. Em etapa posterior passou-se a emiti-las lastreadas no “ouro enterrado”, a quantidade suposta de ouro existente e a descobrir nas minas do país e de suas colônias. Em seguida, o lastro da moeda passou a ser o potencial de geração de riqueza da nação, fator fundamental para o financiamento das próprias revoluções industriais, pois então a disponibilidade de dinheiro passou a ser muito superior ao valor total da economia, propiciando seu crescimento por via de investimentos.

Esse era um dos propósitos da alquimia, a criação de algo concreto a partir do impalpável. O sistema tinha, e tem, um grave inconveniente, passa a ser refém da sua própria necessidade de expansão contínua; otimismo injustificado quanto às possibilidades da produção e do mercado, ou excessivo endividamento, levam a emissões descontroladas de moeda com as consequências conhecidas.

No final, Fausto manifesta a Mefistófeles seu maior desejo: tornar-se proprietário de terras, colonizador, capitalista avant la lettre. Mefistófeles ajuda Fausto a prestar um segundo favor ao Imperador, depois de tê-lo dotado do poder de fabricar dinheiro, ganhar uma guerra difícil. O Imperador concede a Fausto uma extensa faixa de terra litorânea. Fausto aplica-se a conquistar de fato seu feudo, constrói um porto, drena e melhora a terra e traz pessoas para habitá-la, pratica comércio. Assim, dá início à transformação de valor artificial (o papel moeda, a imaginação, o favor do Imperador) em valor real: trabalho, tecnologia, mercadorias. O processo alquímico está completado.

Há um terrível acidente neste percurso. No meio das terras de Fausto morava um casal de velhinhos remanescentes da mitologia grega, Filêmon e Baucis, destacados por Zeus por sua hospitalidade. Um mito moderno não convive bem com um antigo, ou, grandes proprietários não convivem bem com “posseiros”. Por artes de Mefistófeles e sua turma, os dois são mortos e sua cabana incendiada, Fausto quer construir uma torre sobre as ruínas para vigiar melhor sua propriedade: “Logo se erige um belvedere / Para se mirar o infinito”. Sua ambição, já então desmedida, se manifesta: “As poucas árvores que minhas não são / Amarguram-me a posse do mundo”.

Fausto é assediado pela Apreensão. A incerteza de que seus planos possam se concretizar para sempre por meio de crescimento contínuo. Fausto rejeita a Apreensão e é cegado por ela. Cego, está exultante. Ordena a seus trabalhadores que não parem, que continuem sempre. Ouve-os cavando e acredita que estão lavrando a terra, quando na verdade estão abrindo sua sepultura. Fausto morre em triunfo. Sua alma é salva por um artifício jurídico, não fora Goethe também um arguto advogado, o contrato assinado com Mefisto estabelecia uma condição: quando Fausto vivesse em tal plenitude e realização que dissesse ao instante (ao tempo): “Fica, és tão belo!”, o demônio colheria seu prêmio. Ocorre que ao chegar, verdadeiramente, àquele êxtase no momento de sua morte, Fausto alcançou a bem-aventurança, condição que lhe deu entrada no Paraíso, instância superior onde não responderia às inferiores como a do próprio demônio. Não é, de modo algum, uma história edificante.

Gustavo Franco nos dá também um posfácio, em que analisa “Fausto e a tragédia do desenvolvimento brasileiro”. Apresenta-nos Goethe como homem fascinado pelas inovações tecnológicas e descobertas científicas de sua época, desejando viver mais tempo apenas para ver prontos os canais de Suez e do Panamá, então apenas sonhos, mas totalmente factíveis na imaginação do poeta. E é de imaginação produzindo valor real que trata este livro, afinal.

Franco destaca as mudanças dramáticas havidas na economia brasileira a partir da década de 1930, com a derrocada do padrão-ouro. A implantação de uma nova ordem monetária, dando ao Executivo liberdade para emitir papel moeda como se fosse, literalmente, papel. Sem o contrapeso de um banco central independente. Condições que facilitaram inicialmente o processo de industrialização e nas décadas posteriores causaram a hecatombe monetária pela qual pagamos até hoje.

Na versão de Goethe, Mefistófeles não ganha a alma de Fausto. Lega-nos, porém, um recurso tão valioso quanto perigoso, a ser usado de acordo com nosso bom senso. Bom senso? Quem riu por último?

Wanda Camargo é Assessora Institucional das Faculdades Integradas do Brasil – UniBrasil.

 

 



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