Primeiro lugar Concurso de Contos – Troca de pessoal

Perdi minha colega de trabalho: Fernanda foi removida para a filial da Paulista. Ela ocupou a vaga de uma vendedora desidiosa do Shopping Cidade São Paulo que tinha sido demitida. Fernanda comemorou a transferência como se fosse uma promoção.

— Significa que estão reconhecendo o meu valor — ela disse. — As comissões no shopping são bem mais altas.

Eu a felicitei sem muita convicção, e ela, atribuindo a minha falta de energia à inveja, ficou ainda mais orgulhosa, lisonjeada. Mas eu não estava com inveja. De verdade, sem conversa-fiada. Trabalhar na Paulista seria um grande fardo para mim. Em primeiro lugar, a distância (eu precisaria pegar duas conduções), em segundo lugar, a agitação incessante do shopping center, em terceiro lugar, as jornadas estendidas. Não, a loja pacata do Butantã era definitivamente menos ruim. No entanto, não desmenti a hipótese da inveja. Deixei Fernanda pensar que eu queria mesmo estar no lugar dela, pois ela se deleitava com a minha suposta cobiça. Perguntei se ela tinha medo de que a mudança afetasse o namoro com João Guilherme, o segurança da loja vizinha com quem ela mantinha um casinho inocente. Fernanda respondeu:

 — Vai afetar, com certeza. Pra melhor. — Ela se aproximou do meu ouvido como se fosse contar um segredo: — Não tem nada mais atraente do que o sucesso. Prefiro ter sucesso a ser bonita, até porque o sucesso compra a beleza. É bom que ele me veja crescendo na vida.

Um comentário típico de Fernanda. Ela não vendia roupas de grife porque não tinha nada melhor para fazer (como eu), mas porque gostava de moda e de gente rica. Cultivava aspirações empreendedoras, sonhava em desenvolver a própria marca. Aos vinte e quatro anos, ela já tinha falido três vezes. Curiosamente, não mencionava os fracassos com amargura, orgulhava-se da trajetória malograda.

 — Quando eu for milionária, vou contar essas histórias nas minhas palestras — ela garantiu para mim, meses atrás, numa tarde de pouco movimento, enquanto desamassava uma blusa de linho com o vaporizador. — As pessoas gostam de ouvir sobre superação e redenção. “Eu não falhei, encontrei dez mil soluções que não davam certo.”

Fernanda acumulava um repertório inacreditável de frases motivacionais. Várias de Thomas Edison, apesar de também gostar de Charles Chaplin, Dalai Lama, Oprah Winfrey, Beyoncé, Confúcio. Poucos dias depois de nos conhecermos, ela pregou, na minha bolsa, um broche que ordenava: tenha coragem. Fernanda acreditava na promessa capitalista de ascensão social para aqueles que se empenhassem e não desistissem diante das adversidades. Eu via o emprego na loja como um meio de garantir a minha subsistência; ela o via como um espaço de pesquisa para o seu próximo microempreendimento malsucedido.

Certa vez, cometi o erro de perguntar por que ela queria enriquecer. Ela me olhou como se eu fosse maluca.

— Por que eu não ia querer enriquecer?

— Dá trabalho — ponderei.

— Ser pobre dá muito mais trabalho.

Pois é, Fernanda estava nas nuvens com a transferência-promoção para a Avenida Paulista. Na despedida, nem fingiu que sentiria a minha falta.

A questão é que eu só fiquei uma semana trabalhando sozinha. Saiu Fernanda, entrou Conceição (ou Ceiça), que atendeu ao cartaz de classificados que eu pendurei na vitrine, o mesmo cartaz que Fernanda pendurou no ano anterior, quando a desempregada era eu, e que alguém tinha pendurado antes dela, quando a desempregada era ela. Ceiça estava contentíssima com a contratação, Fernanda estava contentíssima com a promoção, a dona da loja estava contentíssima em se livrar da ex-empregada desidiosa, eu estava indiferente. A única prejudicada foi a vendedora demitida do Cidade São Paulo, mas pelo menos três pessoas se beneficiaram diretamente da desgraça dela. Uns se ferram, outros tiram proveito disso, e assim segue a vida. E os ferrados nem podem se queixar de seus infortúnios. Quem era a vendedora demitida da Paulista para supor que a felicidade dela valia mais do que a felicidade de três?

Todos os dias, Ceiça me lembrava da minha insignificância. Não que ela falasse alguma coisa a respeito (não falava muito, não era conversadeira como Fernanda); bastava a sua mera existência ali, executando o serviço tão bem e tão mal quanto Fernanda executava. Sai um, tem uma fila. E isso não valia só para mim, para Ceiça, Fernanda e a vendedora demitida do Cidade São Paulo. Valia para qualquer pessoa. Qualquer uma. Esse universalismo me espantou. Eu meio que já intuía que eu, sozinha, não era grande coisa, que o mundo funcionaria sem mim etc., mas a percepção de que ninguém importava, ninguém caramba!, me pegou desprevenida. Nem os gênios importavam. Eu trabalhava na loja de roupas femininas durante o dia, para conseguir pagar a faculdade de letras no turno da noite. Na antevéspera da prova de introdução à literatura inglesa, me veio a ideia crítica: se Shakespeare não tivesse escrito aquelas coisas lá que ele escreveu, sabe o que o resto da humanidade teria feito? Teria lido outras coisas. Teria lido outras coisas, peloamordedeus! (Eu estava em cima de uma escada, organizando a prateleira de calças jeans, quando tive esse pensamento exaltado, o que me desequilibrou e quase me fez levar uma queda. Ceiça viu e gritou: ei! eita! cuidado!, mas eu não liguei para ela, não queria interromper a minha epifania.) A humanidade teria lido outras coisas, outras coisas talvez até melhores. Não foi Tolstói que disse que Shakespeare era um idiota? Ou foi Dostoiévski? Hitler deve ter lido Shakespeare. No mínimo, Hitler leu alguém que leu alguém que leu Shakespeare, o que significava que Shakespeare fazia parte da constituição de Hitler, ainda que uma parte ínfima. Mas isso na verdade não importava. Porque Hitler também não importava. Se Hitler não tivesse mandado matar milhões de judeus, outra pessoa teria feito uma lambança parecida. Talvez esse Hitler alternativo tivesse mandado matar milhões de cristãos ou de brasileiros ou de asiáticos. Que diferença fazia, se morreriam os judeus, os cristãos, os brasileiros ou asiáticos? Pensar sobre a arbitrariedade do passado e da história se tornou a minha obsessão. Eu sou tão aleatória, foi o que eu rabisquei no canto do catálogo da coleção primavera-verão que enfeitava o balcão da loja. Todo mundo é aleatório. Ninguém escapa à arbitrariedade genética.

Ceiça notou que eu andava cabisbaixa e tentou me consolar, pobrezinha. Perguntou se eu estava com saudade de Fernanda. Eu consegui levantar o rosto e olhar bem nos olhos dela:

— Não é da Fernanda que eu sinto falta — esclareci. — É da minha inocência, do tempo em que eu vivia sem saber que todo mundo estava mal.

 

Postado em GRADUAÇÃO, NOTÍCIAS, NOTÍCIAS EM DESTAQUE, UniBrasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *