Primeiro lugar do Concurso de Contos: O derradeiro

Pediu que lhe deixassem molhar a boca com um pouco de vinho; a velha já sabia que aquilo não haveria de matar o que a matava, mas quis aproveitar enquanto pôde. Negaram, é claro, mas ela insistiu ― com a voz rouca, porém ainda firme:

“Só um traguinho! O último! Tá na bíblia! No Antigo Testamento! Provérbios: ‘Dê bebida fermentada aos que estão prestes a morrer, vinho aos que estão angustiados; para que bebam e se esqueçam da sua pobreza, e não mais se lembrem da sua infelicidade’”.

“A senhora anda lendo a bíblia escondida de mim, ou memorizou esse trecho desde moça? Safada!”. Todos riram ― mas, ainda assim, lhe espiaram de canto de olho, para ver qual seria a sua reação: ela esboçou um sorriso, deu de ombros, e olhou pro nada: “O vinho me leva de volta pra dias melhores; só isso”.

Havia demandado, na segunda, que lhe preparassem um jantar decente, que não tivesse gosto de comida de hospital, mas sim “gosto de comida que sacia o corpo e a alma”. Os filhos tentaram contestar; no entanto, um deles, pressentindo o pior, conseguiu fazer com que os outros cedessem: “E se esse for o final?”.

Então, em plena terça-feira, após uma tarde intensa na cozinha, a família completa se reuniu na sala de jantar; filhos, netos, dois pequenos bisnetos e a vizinha, também viúva e amiga de muitos anos, solenemente observavam a senhora e a mesa posta.

As filhas prepararam frangos assados com recheio de farofa de miúdos, purê de batatas, e uma farta salada de rabanetes. Ninguém tinha realmente paladar praquele vegetal, então ela comeu tudo e lambeu os dedos temperados de vinagre e sal. A filha do meio tentou um tímido “Mamãe, a sua pressão!…”, mas o tilintar de copos e talheres acabou abafando a reprimenda; “Alguém pode me servir um pouco mais do tinto?”.

Para a sobremesa, havia pedido pudim de pão amanhecido ― aquele que havia ensinado para os filhos quando eram pequenos; pras meninas dizia que o doce haveria de cativar até os corações mais amargos; pros meninos dizia que, assim, eles não haveriam de depender de ninguém para tornar a vida mais doce. Com o pudim já em seu potinho, e após incansáveis colheradas, se regozijou ao ver que eles lhe haviam superado.

Vigiavam-na a comer, silenciosa e preocupadamente, pois não sabiam como ou no que aquilo tudo poderia impactar o seu organismo já debilitado. Mal sabiam que ela havia juntado todas as energias que podia, pois compreendia que depois precisaria delas para fazer a digestão. Se sentiu estufada, mas aproveitou a sensação com prazer, pois havia tempos que não a experienciava.

Os mais novos ficaram felizes com a aparente melhora da matriarca; os mais velhos, incrédulos, acreditavam que aquela poderia ter sido a última ceia da família como até então a conheciam.

Findo o jantar, ajudaram-na a trocar a roupa de sair pelo pijama e a escovar os dentes ― os que ainda tinha e as dentaduras ―, e, depois, a colocaram na cama; puxaram o cobertor, acomodaram-na bem, e torceram pelo melhor.

Na manhã seguinte, a filha que havia voltado a morar com a mãe passou por seu quarto e encontrou a cama da velha vazia ― mas bem feita. Desesperada, procurou no banheiro, na sala, no jardim, até que chamou seu nome alto, já temendo o pior. Ela então respondeu um “Aqui, filha!”, baixo e macio.

Ao entrar na cozinha, esbaforida e confusa, o cheiro familiar (e, ao mesmo tempo, inesperado) a atingiu sem aviso: a mãe passava um café, e havia pão fresco e ainda quente sobre a mesa.

Mãe… você que foi comprar esse pão?” Com uma risadinha divertida e rasgada ela confirmou que sim, deixando a filha desnorteada. “Mas mãe… não… você não pode sair! Não é um bom momento pra sair de casa agora… você, na sua condição… não pode…tá perigoso lá fora, você sabe, e…”.

Mas ela só a ignorou; ligou a televisão, se sentou à mesa, perguntou se ela queria tomar café, e logo se distraiu, ao responder o apresentador do jornal que não a ouvia.

A mulher saiu da cozinha e ligou para todos os irmãos; “Vocês precisam vir. JÁ”. Quem estava no trabalho e quem ainda nem tinha saído inventou desculpas, disse que se tratava de uma emergência de família, ou saiu sem nem se explicar; todos foram de novo pra casa da mãe, e, como as contrações que a mulher já conhecia bem após tantos filhos, chegaram quase juntos, com intervalos de poucos minutos.

Ninguém entendia nada.

A velha piscou para o neto mais novo, e a filha do meio acusou: “Mãe, eu vi isso!“. “Quer dizer que a senhora tava mentindo todo esse tempo?!”, questionou o filho mais velho, inquisidoramente. A senhora então jurou ― de pés não tão juntos ― que a causa da melhora era a comida saborosa e a companhia de toda a família e da amiga no jantar que haviam oferecido à ela.

“E o vinho que há anos não bebia, claro”, entrecortado por novas risadinhas.

Na noite anterior, já na calçada, alguém havia feito menção àquelas melhoras repentinas antes do adeus final; hoje parecia que a esperança ganhava fôlego novo: era quarta-feira, mas parecia domingo. E ainda que, de tempos em tempos, duvidassem do que estava acontecendo e das palavras da mãe, todos aproveitavam o momento; havia muito a senhorinha, acamada pela saúde frágil, não se levantava.

Mas agora ela estava ali, junto deles, em pé, de corpo e mente presentes, cozinhando e brincando com os netos e bisnetos!… um ar ora onírico, ora nostálgico (ora ambos!) temperava os ânimos com sabor especial e único.

No final do dia, em meio a despedidas, a matriarca fez questão de dar um abraço mais apertado em cada um; temiam até machucá-la, mas ela dizia “Aproveita! Do amanhã eu não sei, mas hoje tá tudo certo. E isso basta”. Pros mais velhos distribuiu palavras de afeto, e pros mais novos palavras de encorajamento; disse a todos, abusando de redundâncias, que, mesmo quando algo parece ser “o mais derradeiro dos fins”, sempre há algum depois ― “Olha só pra mim!”. Todos acharam aquilo enigmático demais, mas ninguém ousou contestar.

Naquela noite, após desejar um bom descanso à filha, sozinha ela foi ao seu quarto (com alguma coisa mocada sob o casaco), tomou um banho, penteou os cabelos, colocou um pijama limpo e se deitou; adormeceu algum tempo depois, com uma taça vazia nas mãos.

No dia seguinte, a filha foi direto à cozinha, mas ela não estava lá. A chamou, mas ela não respondeu. Sem suspeitar de algo além de cansaço, dirigiu-se então ao quarto, e abriu a porta com cuidado, tentando não fazer barulho; o cômodo estava mais silencioso ainda.

Na mesa de cabeceira, uma garrafa de vinho tinto ia já pela metade; a taça agora estava sobre o cobertor, e uma pequena nódoa bordô manchava o sobrelençol. Um sorriso era perceptível nos lábios ainda tingidos de rubro, mas o corpinho já estava rígido.

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