Relato de uma Astronauta

A minha primeira tatuagem cerebral adquiri aos 8 anos, coincidentemente, foi no mesmo dia em que me formei como Astronauta.

Era uma tarde de verão, no meio dos pequenos prédios frutos de uma pífia tentativa de mais uma cidade suburbana de se assemelhar a uma metrópole, estava lá, meu pequeno eu, de mãos dadas com a minha mãe no emaranhado de cores e consumismo dos transeuntes. Estávamos no calçadão, em busca de calças jeans e sutiãs. Quero deixar aqui meu obrigada aos produtos de limpeza, cuja fragrância provoca o desenvolvimento precoce da sexualidade e do corpo, desta armadilha, não pude escapar à regra.

Apesar de ter 8 anos, meus seios começavam a querer se desgrudar da derme, aquela massa fofa e amorfa que destoava da minha camiseta cheia de glitter e unicórnios, mal sabia eu que isso seria um dos primeiros limitadores da minha individualidade como ser humano. Sempre me questionava o porquê tinha que usar sutiã. Por que meus primos podiam andar por aí, sem camisa, sentindo o vento resvalando na pele e eu não? A única resposta que recebia dos adultos era porque eu estava crescendo. Daí em diante, sempre quis ser homem, porque eles nunca crescem. E aquela alça, do pequeno sutiã rosa quadriculado, que caia nos meus ombros também dizia:

― Cresça!

― Não enche! ― e minha mão melecada de suor, catarro e sorvete botava ela de volta no lugar.

            Shopping, o estabelecimento com um nome que nenhuma das duas sabia o significado, era o escolhido para a compra das roupas. Entramos na primeira loja, com uma porta de vidro e uma fita avermelhada no meio dela, com mais um outro nome o qual ratificava nosso alto nível de colonização: o de arrancarem até as palavras. Do outro lado do balcão, moças bonitas com cabelos negros e de chapinha respondiam as perguntas da minha mãe, indagações consideradas chatas demais para prestar atenção, então, minha cabeça foi viajar para outro lugar.

Não só a minha cabeça estava em outro lugar, mas meu corpo aos poucos foi se afastando de minha mãe para desbravar o mundo daquela loja, que já havia se transformado em um imenso pântano com árvores de calças jeans e camisetas coloridas dependuradas por todos os lados, atrás de uma arara o que poderia haver? Um dragão? Anaconda? Estava disposta a descobrir o mundo que me reservava aquele lugar inóspito e inexplorado.

No meio do meu devaneio, aparece um homem. Com um sapato marrom social, cinto combinando, uma calça jeans de azul bem claro igual ao da camisa listrada. Um senhor branco, de cabelos brancos e olhos profundamente negros. Trombei com ele que, aproveitou o fato da minha mãe estar lá na frente, assim como as moças bonitas da loja, encheu a mão com a banda esquerda da minha bunda e disse no meu ouvido:

― Adoro crianças da sua idade!

Algo, algo, lá no fundo me sacudiu.

Um grito interno: Corre!

E corri, até encontrar um porto seguro chamado mãe. Foi instantâneo, a partir daquele momento, me fundi ao braço dela.

Eu era o terceiro rim.

Logo após, o homem foi para detrás do balcão e se apresentou como o dono na loja. Com um sorriso simpático, não parecia com a personagem de segundos atrás. Usou a mesma mão que me apalpou para cumprimentar a minha mãe. Quando ele disse, “que gracinha de menina” e ia apertar a minha bochecha, um instinto se pronunciou:

― Mãe, quero ir embora!

― Experimenta esta roupa…

― Não gostei, quero ir embora.

― Ai, desculpa, ― dizia ela se dirigindo às moças e ao senhor/pedófilo/dono da loja ― ela deve estar cansada, andamos o dia todo!.

Enquanto saíamos, não olhei pra trás e, a cada passo, cada vez mais, me agarrava a minha mãe com medo “daquilo”. Eu não sabia o que era, não sabia o que sentia, mas não gostava, era algo muito confuso. Contudo, sempre fui muito faladeira e curiosa, quando me senti em uma distância segura, contei para a minha mãe acerca do ocorrido. Ela, do alto dos seus 1,58, disse:

― Bem feito, isto é para você aprender a nunca mais sair do meu lado!

Naquele instante, às exatas 17: 35: 06, em 27 de julho de 1996, com a Lua meio cheia e meio vazia e Mercúrio com certeza retrógrado, o asfalto se rompeu. E dele germinou o nada, do nada saiu um buraco-branco, do buraco-branco galáxias começaram a brotar que distanciaram a minha mãe de mim em milhões de anos-luz. Primeiro foi a Via Láctea, depois Andrômeda e tantas outras foram se intercalando e brigando para ocupar o espaço entre nós, até que ela virou um ponto. Um ponto que explodiu, cuja poeira cósmica deixou apenas como resquício as moléculas desoxirribonucleicamente desarranjadas e a nossa ancestralidade mitocondrial.

No vácuo não tem som, por mais que a chamasse, tive que desbravar sozinha um universo de coisificação das mulheres e de estupros normalizados. Um universo no qual um apresentador se sente confortável e confiante de perguntar a uma menina se ela prefere “sexo, poder ou dinheiro”, onde estupidamente ainda se diz que homem não chora porque isso é coisa de mulher.

Foram trilhados muitos anos-luz para compreender que comportamentos se herdam e histórias se repetem. Entendi que aquela criança de 96, também foi a minha mãe, a minha avó e todas as outras responsáveis por formar o meu amontoado de carbono instável.

Sou triturada, moldada, cuspida e reconstruída e, apesar de ser estigmatizada por causa de uma maçã que não comi, continuo acreditando que, um dia, as estrelas vão brilhar diferente.

 

Autora: Iris Aparecida Franco

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