Terceiro lugar no Concurso de Contos: Schopenhauer no Banheiro

por Natasha Zanetti

É um verdadeiro absurdo supor que o sofrimento é sem sentido e puramente acidental já que  a vida humana nada mais é do que uma série de esperanças frustradas e decisões desastrosas. Renato, por exemplo, cometeu o engano de ignorar as consequências de certos rituais de invocação. Estava na idade de enfrentar os medos que dizia não ter, de provar aos outros, mais do que a si mesmo, de que era capaz. Simulou uma coragem afetada, tomou a dianteira e cumpriu o ritual:

Apagou e ligou as luzes 1 2 3 vezes.

Deu a descarga 1 2 3 vezes.

Fixou os olhos no espelho e invocou:

loira do banheiro loira do banheiro loira do banheiro.

Mas não foi a loira do banheiro quem apareceu no espelho e sim o filósofo Arthur Schopenhauer.

Renato esperava algo mais parecido com a Xuxa do que aquela carranca ranzinza, mais feia  que o velho da Aveia Quaker. Correu do banheiro como uma galinha degolada, esbarrando nas risadas dos colegas e permaneceu encolhido ao lado do porteiro até seu pai vir buscá-lo. Em casa ninguém conseguiu tirar suas mãos do rosto, o corpo congelado na cama entre o pai e a madrasta. Os braços somente amoleceram quando o sono chegou, revelando manchas claras ao redor dos olhos. As manchas não paravam de se estender em sua pele, rendendo-lhe apelidos toscos, como se já não bastasse ser chamado de maricas o tempo todo após o incidente no banheiro da escola. O que seria pior que isso?

O que prometia ser uma aparição pontual era, na verdade, uma imposição de convívio. O velho falava com Renato em uma língua incompreensível e raivosa, vivia resmungando pelos cantos da casa. Começou a segui-lo quando passeava com os cachorros, que ao contrário de Renato, pareciam apreciar sua presença. Fazia cara feia durante a oração do “pai nosso” na escola, repreendia o menino quando dava moedas aos mendigos e ficava prostrado atrás de seu pai fazendo gestos enquanto jogavam xadrez. Incapaz de compreender o sentido daquela aparição e por medo de parecer louco, o garoto adotou uma postura resiliente: acostumou-se com o fantasma e nunca contou a ninguém sobre ele.

Foi aos 15 anos, em um livro de filosofia, que Renato descobriu a identidade do velho. Soube que os longos discursos de Schopenhauer não eram falados na língua dos mortos e sim em alemão. Matriculou-se em um curso e os monólogos transformaram-se em diálogos. Filósofos nunca descansam, retornam sempre que invocados, mesmo que de forma indireta. São muitos os portais que abrem caminho para cientistas, compositores, escritores e artistas atormentados. Voltam para perpetuar suas teorias através dos vivos, o que pode se tornar algo perigoso: nada pode ser mais prejudicial ao pensamento próprio do que uma influência muito forte dos pensamentos alheios.

Às vezes tais encontros são bem sucedidos, beneficiando ambas as partes. Porém, na  maioria dos casos, o destino age como uma máquina perversa cujas engrenagens são movidas pela insanidade. Um venezuelano tirou a roupa em plena defesa de doutorado e tentou montar nos orientadores da banca, gritando Evoé Baco! ininterruptamente. Foi internado ao alegar que Nietzsche começou a persegui-lo depois de uma sessão de ouija. Quando tinha 6 anos, uma pianista chinesa, virou-se para baixo e encarou a escuridão com a cabeça entre as pernas. Acabou invocando Mozart sem querer. Aos 20 anos, na tentativa de superá-lo, surtou e arrancou todas as unhas após compor uma sinfonia de 6 horas de duração. Ela não pareceu muito satisfeita, mas há quem diga que é sublime.

Renato ingressou na carreira acadêmica sem grandes problemas. Fez doutorado em filosofia na Alemanha e ao voltar para o Brasil conseguiu uma vaga como professor efetivo de uma universidade federal.  Suas monografias pesavam e o trabalho ocupava todo seu tempo. Nunca teve um relacionamento, pois nenhuma mulher era inteligente o suficiente para ele, as considerava apenas como uma necessidade esporádica. Seu ego era inabalável. Dominava a arte de debater mesmo sem ter razão (coisa que jamais admitiria). Sua fala e escrita eram herméticas e o alto índice de reprovação dos alunos em suas disciplinas era tratado por ele como motivo de orgulho. Os outros professores desviavam de seu caminho pelos corredores, cansados de ouvir teorias que extrapolavam a filosofia e se estendiam para outras áreas científicas como a física quântica. Esgotava até mesmo Schopenhauer que, pela primeira vez na vida e no pós-morte, aprendeu a concordar para se poupar.

Renato trabalhava com empenho em uma nova dissertação quando foi surpreendido pela ressurreição de sua mãe, que não foi invocada, mas voltou dos “mortos”. Seu pai sempre lhe contou que ela estava morta. Escondeu a verdade por vergonha, era muito para ele contar que a esposa o havia largado com um bebê e fugido com a vizinha. Mas somente os vivos precisam de dinheiro e a mãe estava na pior.

Não teve como escapar, ela descobriu onde trabalhava, procurou sua sala e por lá se meteu. Ainda levou uma “amiga”, mulher tatuada e de cabelos vermelhos, bem mais nova que ela. Para Renato, ter uma mãe invasiva, cheia de maneirismos vulgares e que não se referia a ele com o respeito que se relega a um Dr., era o fim. O envergonhava o tom espetaculoso da sua fala, o modo como ela engatava uma frase na outra, contando em voz estridente todos os acontecimentos antigos e recentes:  que o caso com a tal vizinha não durou muito e que perdeu o programa que tinha numa rádio pra umazinha que fazia boquete no chefe. Falou também sobre sua tentativa de publicar contos eróticos, coisa que ela fazia antes mesmo de lançarem 50 tons de cinza, você leu meu filho? Aquilo não é nada perto do que eu escrevo. Schopenhauer, com a cabeça desabada sobre o punho, fez sinal de que era hora de se livrar daquele falatório.

Ah, querido, você tem carro? Eu e Susanita precisamos de carona, é muita estrada.

A mãe sentou no banco da frente, alisando o interior do carro. Schopenhauer foi atrás medindo o decote da Susanita. A mãe informou o destino, estavam hospedadas num motel de estrada, mais barato que hotel. Renato resmungou que sabia o caminho. Foi quando ela cansou de si e voltou seu interesse ao filho, os olhos de flecha disparando perguntas indiscretas:

Sabe o caminho? humm. Você é casado? Tem namorada? Não? Também com esse problema, né? O que aconteceu com sua pele, como é o nome disso? Viti vitligo, viti-ligo!  Ô Susanita, sabe aquela doença do Michael Jackson? Não? Acho que quando você nasceu, ele já era todo branco. É uma pena, meu filho, que você tenha puxado a família do seu pai, se você fosse branquinho que nem eu, ó, nem dava pra perceber, assim chama muita atenção. Eu vi uma palestra sua no Youtube. Não entendi porra nenhuma. Por quê você fala tão difícil? Fale que nem gente. As pessoas pagam pra ouvir você falar e fingir que entendem? Nem sabia que isso era profissão, pensei que filosofar fosse coisa de quem não tem o que fazer, até eu faço filosofia sem sair do meu sofá. Até os mindigo filosofam.

Susanita ri de uma maneira que irrita. Do retrovisor, Renato vê que em seu sorriso faltam os incisivos laterais.

Diga pra hiena da sua namorada parar de rir ou eu mesmo calo a fuça banguela dela.

Que é isso, querido? Tá bravo por quê?

Diga logo o que você quer. É dinheiro? Você não merece nada de mim.

Posso não merecer, mas preciso. Você ganha bem que eu sei, pesquisei na internet, naquele portal que diz o que os funcionário público ganha. Não tem esposa, não tem filho, não tem nem vida, deve ter dinheiro sobrando pegando teia no banco. Pare de ser mão de vaca que nem seu pai, 10 mil é o que eu preciso pra sumir de vez.

Renato não esboçou resposta, a voz da mãe se transformou em um zunido, uma libélula presa no carburador, uma cigarra ciciando no fim da tarde, fazendo ninho em seus tímpanos, os olhos fixos na estrada quase vazia, as placas, os verdes dos terrenos baldios borrando na curva, a freada no acostamento, as mãos esganando a mãe.

Olha aqui o que você merece.

A cabeça grisalha sacudida, o pescoço preso nos dedos trêmulos de Renato. Susanita gritando, batendo nos bancos, dando tapas em seus braços até que Renato soltou a mãe e libertou o silêncio, novamente quebrado pelo som das portas destravando e dos socos no volante que ordenaram SAIAM DAQUI AGORA.

Susanita foi ágil, mas a mãe se enganchou no cinto de segurança, ainda recuperando o ar, sentindo a pressão latejando nas têmporas. Saiu trôpega, cambaleando em direção à Susanita que já ia longe, mas parou para esperar que a amiga a alcançasse. Renato levantou a cabeça e viu o parceiro sorrindo cúmplice, fixou no espelho o fantasma que não foi invocado e que precisava voltar para o inferno de onde saiu.

Engatou marcha à ré e passou por cima da mãe 1 2 3 incontáveis vezes.

O primeiro impacto a fez sumir do quadro, um bicho preso grunhindo embaixo da lataria, embolando e estalando sob o peso das ferragens e dos pulsos firmes de quem atravessa eternamente uma estrada acidentada somente pelo prazer da aventura.

Renato respirou fundo a névoa de poeira e fumaça que entrava pela janela. Virou os ombros e se deu conta que estava sozinho. Parou e saiu do carro ignorando os berros de Susanita diante da massa de carne e trapo ensopada. Com o cenho franzido, a mão sobre a testa como uma viseira, procurava seu mentor enquanto mais testemunhas surgiam ao redor. Do outro lado da rua, com um cachorro morto nos braços, o velho Schopenhauer desaparecia.

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